9.5.06

Eu, os outros

Por vezes, deambulo pelas ruas da cidade, sozinho e, no entanto, acompanhado dos outros. Os outros? Quem são os outros? Eu sou os outros. Eu diluo-me na multidão que sobe as escadas do metro, na estação terminal da ilusão. Eu misturo-me na massa cinzentona que desagua nas pedras da calçada, pisadas e repisadas por sapatos velhos, e que quer apanhar, sem demoras, o autocarro da anomia. Ninguém me conhece. Eu não conheço ninguém. As caras e as mãos são-me estranhas. Encosto-me à estátua sentada e fico à espera de nada. Vejo os outros passarem por mim, de olhos postos no chão. É a vida invernosa da cidade que dura o ano todo. Também eu vou acabar por erguer-me e andar, de olhos postos no chão. Não há nada de novo aqui e eu, como os outros, vou tropeçar naquele degrau em que todos tropeçam. Eu não sou mais do que os outros. E continuo a deambular sozinho.

2 comentários:

Crestfallen disse...

podes sempre marcar a diferença no cinzento, abrindo um sorriso, azul, vermelho, amarelo ou lilás e de certeza que outros surgirão à tua volta.

"sugestão" disse...

E que tal um "faduncho no Bairro Alto" para quebrar essa apatia?

"Canoa, por onde vais?/
(...)
Nunca mais voltas ao cais..."